Nos últimos dias, a imprensa (principalmente televisiva) tem dado grande atenção ao caso da morte da menina Isabella, tornando-se uma quase obscessão de telejornais e programas matutinos. Este comportamento da mídia é bastante controverso, uma vez que o caso diz respeito uma tragédia particular e, infelizmente, não exclusiva da família em questão: diversas pessoas são assassinadas no Brasil todos os dias, incluindo crianças. Por que, então, tanta atenção a este caso?
Um argumento conspiratório sempre aparece nesta hora (e pode ser encontrado em comentários pela internet, como por exemplo, no excelente blog jornalismo b): a mídia concentra-se nestes casos para desviar a atenção do público de assuntos mais importantes (note a crise dos cartões corporativos praticamente sumiu da cobertura jornalística). E o público, como um rebanho de ovelhas, segue inconscientemente as instruções da mídia e esquece dos tópicos mais relevantes.
Prefiro, entretanto, uma interpretação que assuma que as pessoas não sejam tão ingênuas. Acho que a causalidade corre mais no sentido contrário, com o comportamento da imprensa sendo pautado pelo público. Existe algo neste caso que despertou extremo interesse do público (não sei exatamente como explicar, mas é difícil prever as preferências dos indivíduos; economistas em geral as tomam como dadas). E a imprensa, que no fim das contas quer vender jornais e espaços publicitários em intervalos televisivos, reage racionalmente e enfatiza o que o público deseja ler ou assistir. Se a Globo não cobrir o caso, o SBT o fará e roubará a audiência da primeira, diminuindo sua receita publicitária.
Esta história, entretanto, pode dar racionalidade a intervenção governamental na imprensa. Dado que o espaço em telejornais é limitado (e grande parte do tempo é tomado pelo caso Isabella), assuntos “importantes” receberão pouca ou nenhuma cobertura. Acho, todavia, que a interferência estatal sobre a imprensa criaria um problema ainda maior. A grande questão é definir o que é “importante”. Assim como jornalistas, políticos também reagem a incentivos. Se a tarefa de estabelecer quais questões são relevantes for deixada aos governantes, estes poderiam impor público sua própria agenda. Por exemplo, escândalos de corrupção poderiam ser acobertados ao serem considerados de pouco interesse do povo. Além disso, a intervenção estaria em desacordo a idéia de imprensa livre e independente, prejudicando seu papel de órgão fiscalizador do governo. Retornarei a este tópico no futuro.
A imprensa e o caso Isabella
abril 22, 2008O Álcool e a Crise de Alimentos
abril 14, 2008A imprensa no Brasil e no mundo tem dado grande ênfase à chamada “Crise dos Alimentos”. De fato, o preço das commodities em geral apresentou um substancial crescimento, que tornou-se mais intenso em 2008. Segundo dados do Banco Mundial, desde 2006 o preço dos bens alimentares – gorduras e óleos vegestais, grãos, carne, frutas, açúcar e leite – aumentou 75%. Só nos três primeiros meses deste ano este aumento foi de 17%. Também neste ano o preço do petróleo rompeu a barreira psicológica dos US$ 100 por barril.
O que tem causado tal movimento? Há varios fatores estruturais e conjunturais atuando:
- O crescimento acelerados de países asiáticos relativamente pobres em recursos naturais, como China e Índia. Com o aumento da renda nestes países, um enorme contingente de pessoas incrementa o mercado de consumidores de proteínas (principalmente carnes e grãos)
- A elevação no preço do petróleo, que eleva o custo dos insumos do setor agrícola e as despesas com frete. Neste período, o preço dos fertilizantes foi o campeão das altas
- Quebras sucessivas de safra em países produtores, como a Austrália. O sul do Brasil também se enquadra nesta categoria
- Uma bolha especulativa nos mercados de commodities, como em muitos outros mercados
- Crescimento da produção de biocombustíveis, que deslocam recursos de outros setores da economia e competem com a produção de alimentos
Seria possível criar um seção deste blog só para este assunto, tamanha sua vastidão. Mas por enquanto eu vou enfatizar só o último tópico.
A produção de biocombustíveis tem sido apontada como a grande vilã nesta estória. Muita gente inteligente, incluindo o Prof. Paul Krugman, que já foi um acadêmico sério, tem demonizado o etanol e clamado pela suspensão das políticas de incentivo ao seu uso. Tem muita coisa séria, mas diversos equívocos.
Em primeiro lugar, vamos separar etanol de milho do etanol de cana. Quase todas das desvantagens dos biocombustíveis apontadas pelos críticos aplicam-se ao etanol de milho, produzido nos EUA. O etanol de cana é uma outra estória. O balanço energético e ambiental do etanol de milho é praticamente nulo: sua produção absorve a mesma quantidade de energia contida no produto, e a redução da emissão de CO2 ao longo do ciclo é ínfima. Alguns cientistas dizem que essas magnitudes são negativas… Mais da metade do crescimento da demanda por milho teve origem na produção de etanol, e puxou o resto das commodities agrícolas. Fazendeiros respondem a incentivos!
O álcool brasileiro, produzido a partir da cana, é bem diferente. Consome 1/8 da energia que produz, e reduz a emissão de CO2 em até 70%. Para quem acha que o canavial vai ocupar o espaço dos alimentos, recomendo uma olhada atenta na tabela sobre o uso da terra no Brasil, levantada pelo Ministério da Agricultura: pastagens ocupam 210 milhões de hectares, enquanto a cana mal chega a 7 milhões de hectares. Ou seja, com a tecnologia atual, produzimos mais de 20 bilhões de litros de etanol com menos de 2% das terras agriculturáveis do país! Embora a cana exija certo tipo de terreno e clima para ter boa produtividade, acho que seria possível dobrar a área sem derrubar uma árvore ou deslocar um boi sequer!
Dizer que o avanço da cana ameaça a produção de alimentos ou a Amazônia parece uma análise que não resiste aos números. Eu ainda volto a falar deste assunto.
Lula e o Juro – Carlos Eduardo
abril 13, 2008Lula, em viagem à Holanda, soltou a seguinte pérola quando indagado sobre a próxima reunião do Copom: “os juros vão subir quando for necessário e vão cair quando for necessário”. Sensacional aula de política monetária!
Os juros reais são ainda demasiadamente elevados no Brasil, e não creio que tenhamos uma boa explicação para isto após a adoção do sistema de câmbio flutuante. Contudo, uma coisa é nível e outra é derivada. Me parece claro que para manter a inflação próxima à meta, o BC precisará sim elevar a Selic em mais ou menos uns 200 pontos-base em 2008. Isto porque a demanda tem vindo pesada. Nos últimos 12 meses a taxa de crescimento das vendas do varejo situa-se próxima a 12%. A utilização da capacidade instalada segue acima de 83% a despeito do grande volume de investimentos, e o agregado M1 expande-se na casa dos 20% em 12 meses. Em meio a tudo isto, a inflação só ainda não elevou-se com vigor porque as importações estão “fechando a conta” sem que isto implique depreciação da nossa moeda. Como isto é possível? Agradeçamos aos chineses que mantém elevados os preços dos bens que exportamos.
Câmbio e Juros (por Carlos Eduardo)
abril 7, 2008Fala-se muito na imprensa que nossa moeda apreciou-se nos últimos anos devido aos juros domésticos bem mais altos que os internacionais. É a lógica da dita equação de paridade. Mas o problema com tal afirmação é que é muito difícil identificar com alguma acurácia a relação causal entre estas variáveis, visto que diversas outras afetam ambas (risco, por exemplo) e que não se pode desprezar que tanto juros causa câmbio (idéia da equação de paridade mais simples, como câmbio causa juros (desvalorizações levam os BCs a reagir elevando juros).
Em artigo com Bernardo Guimaraes da LSE, usamos dados destas variáveis nas vizinhanças das reuniões do Copom e mostramos – usando uma técnica estatística apropriada (identificação via heterogeneidade) – que no Brasil do período 2000/2007 elevações do juro maiores que as esperadas pelo mercado levam a depreciações da taxa de juro, e não o contrário. Duas explicações são possíveis: (i) juro mais alto aumenta dívida e consequentemente o risco, o que por sua vez causa depreciação ou (ii) quando o BC aumenta os juros mais do que as pessoas esperavam, ele envia um sinal de que está vendo algum problema na economia que os mercados não estavam vendo.
Mas então o que causou a apreciação da moeda? Muito provavelmente a combinação de elevados preços das commodities e forte crescimento mundial.
Economista à Paisana
março 22, 2008
Por diversas razões, no Brasil é comum associar o economista a um sujeito que limita-se a estudar temas áridos, como o comportamento da taxa de juros, o crescimento do PIB e a inflação. É verdade que ele não raro se embrenha por aí mesmo, seja sob subsídios da ciência, ou com uma bola de cristal. Mas analisar a macroeconomia não é a única função do economista. Além de não ser a única, não é provavelmente a mais importante, e seguramente não é a mais divertida. Nós acreditamos que o arcabouço de raciocínio do economista é útil para pensar e entender uma gama bem mais ampla de problemas. Neste Blog, não por acaso intitulado Economista à Paisana, queremos mostrar que a lógica econômica moderna e seu braço direito, a análise estatística, ajudam a responder perguntas tão variadas como: por que o Bolsa-Família é melhor instrumento de política pública que o salário mínimo? Por que o comércio internacional é bom para todos os países e não apenas para os mais ricos? Por que as pessoas gastam muita água no banho do chuveiro? Por que algumas crianças trabalham antes de completar 16 anos? Por que o Ronaldinho ganha um salário centenas de vezes maior que o nosso? Por que existem as cidades? Por que ocorreu a crise do subprime? Por que determinada regiões do mundo possuem maior diversidade étnica do que outras? Por que o governo subsidia a produção de flores? Por que a Democracia funciona melhor em alguns países do que em outros? Por que taxar o trabalhador, e não o capitalista, pode ser melhor para os trabalhadores? E tantas outras mais.
Ademais, há entre os participantes do Blog uma insatisfação com maneira como as idéias dos economistas são comumente retratadas. Somos todos economistas que, no debate popular seriam, sem muita margem de dúvidas, carimbados de neoliberais. O fato é que, no mundo acadêmico, do qual fazemos parte, não existe nenhuma corrente respondendo pela alcunha de “neoliberal”. Não vamos aqui argumentar sobre a inutilidade de classificações como “desenvolvimentistas”, “monetaristas” ou “neoliberais”. Na verdade, nosso objetivo é mostrar aos nossos leitores que a corrente econômica que dá o fio comum de nosso modo de ver o mundo, a escola neoclássica, não advoga o fim dos governos ou a ausência de políticas de redistribuição de renda. Os ditos neoliberais não são emissários do FMI, dos EUA ou dos bancos, como muitas vezes aventa a parcela mais sectária da esquerda ou os autodenominados “desenvolvimentistas”. O que de fato caracteriza o que a imprensa imprecisamente chama de economista neoliberal é um método de análise dos problemas econômicos que parte do pressuposto que as pessoas buscam o melhor para si e respondem aos incentivos e restrições que o ambiente externo lhes impõe. Em termos empíricos, o elo comum é o respeito aos dados e a idéia de testar se as teorias promulgadas ajudam de fato explicar o mundo, refutando-as caso contrário.
O Blog está dividido tematicamente em cinco seções. Macroeconomia aborda temas como inflação, crescimento econômico e a última decisão do Copom. Cotidiano analisa notícias do dia-a-dia sob a lupa do cientista econômico. Políticas Públicas é uma seção especialmente voltada para temas como programas sociais, educação, etc. Mundo Acadêmico traz as novidades – devidamente traduzidas do linguajar acadêmico – do mundo científico. Finalmente, em Miscelânea, falamos de coisas que não entendemos direito, como futebol, literatura, cinema, etc.
Escrito por Mauro Rodrigues